O que queremos para o futuro dos nossos filhos? Carmem Zieteman

No dia 19/09/13 a professora Carmem Zietemann esteve no Jardim Angelim falando sobre “O que queremos para o futuro dos nossos filhos? e deixou algumas questões para auto-reflexão:

– O que é importante para nós?
– O que entendemos como adequado para a infância?
– O que consideramos nocivo? (Desta fundamentação devem partir os limites)
– Será que sou disciplinado comigo mesmo?
– Será que sou fiel aos meus valores?
– Quais são meus principais valores?
– Que tipo de exemplo eu forneço aos meus filhos/alunos?
(Listar os principais valores de vida e comparar com os do meu companheiro/a, refletir sobre eles, conversar, alinhar)
– Em que temperamento eu me enquadro?
– Como me enxergo ao impor limites ao meu filho/a?
– Será que sigo hábitos da sociedade somente porque todo mundo faz assim ou porque estou conscientemente de acordo com eles?
– Como meu filho acorda pela manhã?
– Como é o momento de vestir-se pela manhã? As roupas que a criança deverá vestir já são separadas na noite anterior?
– Como é o desjejum de meu filho? Há uma refeição em família, feita com calma e tempo para uma boa mastigação? A refeição é suficientemente nutritiva para que a criança possa aprender na escola? (Laticínio, cereais, fruta e pouco doce?) A mesa já é preparada na noite anterior?
– Como é o trajeto até a escola? O rádio é ligado? Que tipo de música? É adequada para criança? Ou aproveita-se o tempo para conversa agradável e interação familiar? Meu filho chega pontualmente à escola?
– Como é o ritmo vespertino de meu filho? O momento da futura lição de casa já está sendo incentivado, como um momento em que a criança, após descanso depois do almoço, faz alguma atividade sentada? (Desenho, pintura, modelagem, colagem, etc.) Há um local apropriado para isto e o material necessário?
– Olho diariamente o mochila de meu filho?
– A criança tem oportunidade e hábito de brincar dentro e fora de casa, em todas as tardes?
– Tem oportunidade de brincar sozinha e com outras crianças?
– A criança é protegida em relação à mídia (TV, videogame e outros eletrônicos?)
– A criança ajuda a arrumar o quarto após brincar? É estimulada a tornar-se prestativa? (Guardar brinquedos inclui seleção e
classificação, que é a atividade básica para a futura compreensão da aritmética e matemática)
– Como são as refeições em família? Há incentivo a boas maneiras, bons hábitos, comer e experimentar novos alimentos?
– Meus filhos têm tempo para brincar livremente? Ou sua agenda já está cheia de atividades dirigidas? Que oportunidades possuem para desenvolver sua criatividade, fantasia e alegria em brincar?
– Como é a autonomia da criança?
– Como é a hora do banho?
– Como é a hora de ir para a cama? Meu filho dorme o número adequado de horas para sua idade? Há algum ritual que ajude o bom adormecer e um sono profundo? História, canção, oração e/ou conversa sobre o dia?
– Como as crianças são escutadas? Olho no olho e total atenção?
– Há religiosidade em casa? (Respeito e amor à natureza, ao próximo, observação da beleza, etc.)

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Meu filho assiste TV, e daí?

O importante é a escolha feita com consciência. Com a total noção de como a comunicação de massa ameaça em potencial toda boa educação. Com o profundo impacto social que causa, constitui o protótipo das tendências que hoje em dia querem, por todos os meios, apoderar-se do ser humano e de sua formação futura.

Como pais, nossa missão é ajudar na formação do ser humano harmonioso, desenvolvendo em igualdade de nível e de condições, tanto o intelecto como a vida sentimental e a vontade dos nossos filhos. Além de dar condições para que seja um ser humano bem entrosado no mundo, preparado para as suas responsabilidades sociais. Com caráter ponderado, despertar interesses múltiplos e amplos, desenvolver-lhe a fantasia e, sobretudo, a criatividade, pois sabemos que a falta de imaginação e criatividade é um dos piores males com que se deparam todos que convivem com jovens e adolescentes. Tão importante quando darmos condições para que nossos filhos tenham uma escala elevada de valores para sua vida. Por isso não ter medo de cultivar neles ideais tão anacrônicos como o Belo, o Nobre e o  Bom. É preciso incentivar na criança, jovem e adolescente todo um instrumental no qual se incluam os meios para seu relacionamento com o mundo.

Nesse processo, os próprios sentidos tem um papel saliente. Com efeito, é com os sentidos que o ser humano se ambienta no mundo. É somente mais tarde que seu raciocínio intervém. Portanto, para que haja um entrosamento harmonioso, faz-se necessário o cultivo dos sentidos e, ao mesmo tempo, o cultivo da fantasia.

Evidentemente, o jovem terá uma vivência tanto mais intensa e mais rica do mundo quanto mais agudos forem seus sentidos. A imagem que ele terá do mundo e, como consequência, sua atitude perante o Universo, dependerão diretamente de sua capacidade de observar, bem como do dinamismo e do grau de intensidade de sua fantasia saudável.  Se a criança é plasmada por suas vivências, por tudo o que o mundo lhe traz, as vivências, por seu lado, dependem do preparo que nós damos a ela e, em particular, do cultivo dos sentidos.

O que significa a televisão, do ponto de vista de quem se baseia nos princípios acima expostos?

Aspectos fisiológicos

– De todos os nossos sentidos, a VISÃO é, certamente, a mais nobre. Mais do que os outros sentidos, ela permite ao homem Imagempenetrar no mundo. A tridimensionalidade, a graduação do foco em relação as distâncias, tudo isso é ensinado ao indivíduo por intermédio desse aparelho maravilhoso que é seu OLHO. Podemos dizer que as experiências visuais plasmam o indivíduo mais do que quaisquer outras.

No caso da TV inexiste o fenômeno da acomodação, isto é, o mecanismo que permite ao indivíduo enxergar com a mesma lente, tanto de longe quanto de perto. Diante da tela da TV, a pessoa enxerga tudo sempre a mesma distância, de forma que o mecanismo de acomodação de seu olho não precisa funcionar. O espectador cai na mais profunda preguiça ótica: evidentemente, esse mecanismo sensível da visão se degenera e se atrofia pouco a pouco.

Paralelamente os movimentos da cabeça completam nosso aparelho da visão. O olho acompanha o objeto, o indivíduo desloca a cabeça, vira-se para enxergar melhor, para ver mais de perto, para focalizar determinado objeto; os outros sentidos, principalmente o do movimento e do tato, colaboram com a visão para obter do mundo uma impressão nítida. Ora, tudo isso deixa de existir em quem olha o aparelho de televisão. Contata-se a mais completa imobilidade da cabeça e do resto do corpo, assim como a inatividade de todos os sentidos que, além da visão, deveriam contribuir para formar uma imagem do mundo. Apenas o ouvido funciona e, mesmo assim, apenas parcialmente, por causa do som localizado do alto-falante e da completa distorção sonora. O olhar está sempre fixo no mesmo ponto irreal, às vezes minúsculo.

– O espectador é obrigado a ver tudo, não pode desviar a cabeça, não pode escolher um aspecto da imagem e desprezar outros, não pode dedicar-se a um detalhe. A imagem é pequena demais, distante demais e, como a abrangemos de um só golpe de vista, dispensa completamente a escolha, que pressupõe o cultivo de certa sensibilidade. O indivíduo não apalpa, não cheira e nem pode se aproximar do objeto para ouvir melhor.

– Aliás, essas imagens contempladas pelo espectador, são artificiais, pois resulta de montagem, se distanciando da verdadeira realidade. Provoca total irrealidade do espaço visual. A falta da terceira dimensão, num espetáculo que dure duas horas, cria uma verdadeira ilusão ótica;

– A luz fluorescente, é uma luz que não existe no mundo real. Além dos estudos já comprovados do perigo desses raios emitidos pelo aparelho durante seu funcionamento. Animais e plantas que foram expostos aos raios emitidos cresceram menos e até pereceram, quando continuamente expostas.

– O som oriundo da TV também não existe no mundo real. Vindo do alto-falante, o som é sempre artificial, filtrado e manipulado. A esse som falta a vida, falta o timbre espiritual que acompanha qualquer voz humana e o som de qualquer instrumento. Crianças habituadas a assistir muito a TV acabam desconhecendo a realidade dos ruídos, dos sons da natureza, enquanto na verdade deveriam ser incentivadas a escutar, para diferenciar. A pessoa que assiste muito a TV acaba caindo numa completa passividade de ouvir, pois basta apertar o botão para ouvir melhor. Não há mais qualquer busca, qualquer esforço, chegando a iniciativa a zero.

– A falsidade do som + falsidade da imagem produz um autêntico embrutecimento sonoro e visual.

– A irrealidade do tempo de assimilação. A criança é exposta a rápidas e violentas alterações visuais, constantes das imagens, não tendo nada orgânico na percepção sensorial exigida pela TV, porque a criança tem que se submeter passivamente a todas as extravagâncias técnicas relacionadas a TV. Quando se a mesma caminhar pela rua, campo ou jardim, ela mesma determina a velocidade e a intensidade das impressões que recebe e assimila.

Resumindo, a TV não nos traz o mundo real, ela nos traz uma imagem de mentira, numa luz irreal, dentro de um espaço falso, com pseudomovimento, com um som de mentira, e tudo isso num tempo falso. Podemos facilmente imaginar as consequencias desastrosas para a fantasia e para o entrosamento da criança no mundo se ela for submetida durante várias horas por dia a essa avalanche de falsas impressões. Apenas duas horas por dia significam, em 12 anos, um total de quase 9 MIL HORAS!!!!

– Em caráter social, na realidade, cada espectador é um ser isolado e a criança nunca se encontra mais alienada do seu ambiente e do mundo do que quando assiste a TV. Ao invés de viver dentro do mundo, num dar e receber constante, num intercâmbio de ações e reações, de impressões e de atos, a criança tem diante de si o mundo preparado e ilusório, que ao mesmo tempo fica longe dela. Quando se observa a fisionomia das crianças que assistem a TV, são fisionomias crispadas, onde quase não há lugar para um sorriso, para uma lágrima. Só há tensão extrema e crispação, mas nenhuma reação que se pude qualificar como suave ou harmoniosa.

– A imitação. Até os 7 ou 8 anos a criança é um ser que imita, de modo automático e inconsciente aquilo que vê ao seu redor. Assistir a tv significa que a criança se torna impotente diante das informações que lhe são transmitidas, esse mundo a hipnotiza e ela imita automaticamente. (Nem precisamos falar o porque as crianças brincam de bater, matar, lutar e ofender as outras..)

– Assistindo a TV, a criança passa a identificar lazer com esse passatempo passivo. Ela não brinca mais, não cria mais, mantém-se passiva, à espera de uma solicitação exterior, quando seu verdadeiro desenvolvimento exigiria que também durante as horas de lazer ela fosse solicitada para a criatividade.

– Por último e não menos importante, a destruição familiar com suas funestas consequências sociais. Quando a família toda está a frente da TV, todos se tornam passivos e os pais automaticamente abdicam de sua tarefa de educadores. É tão cômodo sentar as crianças na frente da TV!!!! Elas ficam silenciosas, não atrapalham e deixam os pais livres para fazerem outras coisas…

Gerando comodismo e preguiça para interagir com seus filhos, se tornando incapazes de educá-los, pois essa tarefa foi transferida a TV e a escola. Além do completo distanciamento do seu filho. Depois o professor ou um psicólogo precisa remediar uma situação cuja origem reside nesse comodismo dos pais.

E vale salientar que também é consequência social da TV, a completa FALTA DE RESPEITO. Respeito pelo seu próprio mundo, pela sua individualidade, pela natureza, pelos outros seres.

Considerando-se todos esses aspectos, se o seu filho ou você mesmo assiste a TV.. qual o problema?

(texto extraído em partes do livro PEDAGOGIA WALDORF de Rudolf Lanz)

A dor do parto tem um propósito, entenda!

No trabalho de parto, os músculos uterinos sofrem contrações a cada dois a dez minutos. Isso pode ser doloroso, mas é uma dor com um propósito: o resultado natural de um trabalho árduo para alcançar um objetivo. É no auge da contração da musculatura uterina – quando se está trabalhando o máximo e fazendo o maior progresso, o pico dura cerca de 30 segundos – que a dor é mais percebida. Ela pode ser avassaladora, mas há um alívio entre as contrações, um tempo para relaxar, embora nem sempre em total conforto. Mas pelo menos é uma pausa. Nós preparamos mentalmente as mães para a próxima contração. O segredo é saber recebê-la e ter consciência que vai passar. Eu, às vezes, sugiro às mulheres em trabalho de parto dizer as palavras “sim” e “eu te amo, meu filho”, quando a dor começa e persiste.

Assim como as contrações se aproximam e duram mais tempo, o mesmo acontece com osImagem hormônios que aliviam a dor, que cada vez mais são liberados dos nossos cérebros para nossas correntes sanguíneas. Chamamos isso de endorfinas, que são nossos analgésicos naturais. As endorfinas não são suficientemente liberadas para neutralizar a dor resultante da ocitocina sintética, que é usada para induzir e acelerar o trabalho de parto e não desperta o sentimento de amor e ligação originados da ocitocina natural, o chamado hormônio do amor.

A intensidade do sentimento ao dar à luz e as exigências que fazemos a nós mesmas nos desgastam e, então, perdemos nossas defesas. Isso é uma coisa boa. Nesse estado menos vigiado, somos flexíveis e mais suaves, menos resistentes ao bebê que se move através de nós.

A dor tem uma reputação muito ruim. Mas existem algumas pessoas que realmente a enxergam de forma positiva. Natalia, uma mãe de primeira viagem, deu à luz a filha, em casa, há algumas semanas. Perguntei o que ela achava sobre a dor no parto. Ela disse: “A dor – por mais difícil que seja – foi um presente, uma benção, porque foi uma mensagem honesta comigo mesma sobre meu próprio corpo. A dor permitiu focar minha atenção onde ela realmente precisava estar”.

Muitas das minhas amigas deixam o hospital emocionalmente decepcionadas em relação a seus trabalhos de parto, tristes porque os médicos não estavam lá até os últimos minutos, ansiosas com a troca frequente de enfermeiras , incomodadas pelos ruídos e pelo stress, frustradas porque a presença do marido não foi reconhecida . Mas os nascimentos foram medicados e “seguros”. Talvez as mulheres estariam mais inclinadas a escolher ter um parto com uma parteira, caso percebessem que nós, parteiras, lembramos da aflição emocional por um longo tempo, ao contrário da dor física, cuja intensidade do esquecimento é imediata, tão logo a dor passa. Podemos descrever a dor, ou melhor, sua sensação, como algo forte, contrações intensas, mas não podemos replicá-la, porque isso fica no passado. Nosso cérebro tem a capacidade de apagar a memória da dor física quando ela passa, enquanto que o sofrimento emocional permanece presente. Desde que a dor emocional e a alegria permanecem conosco para sempre, é crucial para a mulher dar à luz em um ambiente de apoio emocional!

Promovemos as seguintes ideias e maneiras para aliviar o desconforto ou a dor durante o parto:

* Preste atenção às emoções positivas, como esperança e alegria. Você estimula as consequências dessas emoções.

* A espontaneidade e o humor trazem a sua atenção para o presente, o que alivia a tensão.

* A dor não tem que ir embora, ele só tem que se tornar menos importante.

* Desenvolva uma estratégia para trabalhar com as contrações. Por exemplo, olhe para os olhos do seu parceiro ou parteira e respirem juntos, ou conte até um determinado número até que você tenha superado a parte mais difícil.

*Redefina a dor, pensando sempre no objetivo principal, que é trazer o seu bebê com segurança ao mundo.

* Fique bem hidratada.

* Tenha a companhia de outra mulher para encorajá-la, caso você comece a duvidar de si mesma.

* Faça sons, cante, repita um mantra.

* Siga sua respiração, faça respirações longas e profundas.

* Lembre-se que o que você está passando é benéfico e parte de uma experiência saudável.

* Ore. O nascimento é o momento perfeito para aprofundar a nossa conexão com o Divino.

* Imagine-se olhando para o seu bebê mamando no seu peito.

* Anote declarações que você gostaria de ouvir durante o trabalho de parto e entregue para o seu companheiro ler para você: “Você é tão forte!”, “Esse sentimento não vai prejudicá-la”, “Você é maior do que qualquer sensação que esteja sentindo”, “ Você pode fazer isso”, “Você está fazendo isso!”, “Você está fazendo um trabalho lindo”.

As mulheres passaram a acreditar que elas não podem dar à luz sem intervenção médica, muitas vezes pelo medo da dor. Espero que agora você saiba como se relacionar com a dor no parto, se ela ocorrer. Acredite no propósito da dor e, assim, torne-se mestre da sua relação com ela. Depois, você pode integrar o que está acontecendo fisicamente com seu eu interior. O parto natural é a melhor forma que conheço para as mulheres descobrirem quão magníficas elas são e criarem para si as memórias de uma bela experiência de parto, que um dia serão contadas a seus filhos.

Fonte: Texto extraído na íntegra do blog.giselebundchen.com.br

Alimentação dos 0 aos 3 anos – Segundo a Antroposofia

Um estudo sobre a alimentação infantil
 segundo a antroposofia.
1. Resumo:
Este trabalho aborda o tema da alimentação da criança de 0 a 3 anos sob o olhar da antroposofia, ciência espiritual criada por Rudolf Steiner no séc XIX. A proposta de resgatar uma alimentação natural e saudável focada nas necessidades de cada fase do desenvolvimento infantil é o principal assunto desenvolvido neste artigo. Trata-se de uma exposição de como os Imagemalimentos atuam formando e estruturando o corpo da criança através do amadurecimento dos sistemas metabólico, rítmico e neuro-sensorial ao longo dos primeiros anos da infância. Dessa forma propõe um caminho de reflexão sobre os prejuízos à saúde causados pela má alimentação e algumas formas de sanar este problema.
2. Introdução:
A alimentação é um tema central na vida do homem e de grande relevância na educação da criança pequena. É através dela que o ser humano obtém elementos necessários à manutenção de sua existência física no mundo. Apesar disso, constata-se atualmente que este assunto tem sido motivo de grande preocupação e angústia para pais e educadores que, cada dia mais, precisam lidar com crianças inapetentes, com distúrbios físicos e emocionais relacionados aos maus hábitos alimentares.
Este artigo parte da constatação de uma realidade alarmante sobre a alimentação infantil no Brasil e no Mundo. A crescente oferta de alimentos industrializados, ricos em gorduras e açucares, antes mesmo dos três meses de vida, tem contribuído para o aumento em larga escala dos casos de obesidade infantil e doenças associadas como hipertensão, diabetes e colesterol alto. A obesidade infantil aumentou cinco vezes nos últimos 20 anos no Brasil. (Maysa Helena de Aguiar/2011)
Outra pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde com crianças menores de cinco anos, revelou que a anemia afeta mais de 20% das crianças no Brasil, e cerca de 17% têm deficiência devitamina A. Segundo o Ministério, essas duas deficiências são de maior ocorrência no mundo, e podem reduzir a imunidade a infecções, além de problemas de desenvolvimento cognitivo e psicológico. (Ana Paula Pontes/2011)
Estes dados se relacionam em grande escala com a baixa qualidade alimentar que vem sendo praticada em todo o mundo, configurando um quadro de desnutrição nos países subdesenvolvidos e hipernutrição nos paises desenvolvidos, ambos com sérios prejuízos nutricionais.
Em seguida o texto aborda um caminho de reflexão e uma forma de atuação embasado na teoria científica antroposófica, fundada por Rudolf Steiner (Áustria 1861 – Suíça 1925) que desenvolveu inúmeros trabalhos práticos no campo da educação, medicina, agricultura, arquitetura etc. Steiner estudou a fundo a natureza humana e sua constituição ternária, dotada de corpo, alma e espírito.
O trabalho contextualiza a ciência antroposófica, assim como o significado da alimentação na vida do homem. Para as crianças este processo vai desde a amamentação nos primeiros meses de vida, se desenvolvendo gradativamente de acordo com o amadurecimento do seu organismo.
Para a Antroposofia, a qualidade de um alimento não está apenas no seu valor nutricional, mas também na natureza supra-sensível que ele contém. O conhecimento desta natureza é de suma importância para compreendermos como os alimentos atuam na corporalidade humana estimulando ou inibindo as forças próprias de cada individualidade.
Portanto, este trabalho pretende mostrar porque a origem dos alimentos deve ser considerada ao elaborar um cardápio. Os alimentos que consumimos deveriam vir da natureza, dos reinos mineral, vegetal e animal.  Cada um deles terá uma atuação específica na constituição ternária do homem, assim como na fase biográfica em que ele se encontra.
Finalmente será abordado questões relativas à prática educativa das crianças no que diz respeito à alimentação, aquisição de bons hábitos e eliminação de fatores estressantes na conduta dos adultos referente a este tema.
3. Justificativa:
A reflexão sobre este tema se faz urgente nos dias de hoje tendo em vista os indicadores sobre o aumento da obesidade infantil e demais disfunções metabólicas que tem surgido na primeira infância. Carências de ferro, vitaminas, cálcio, excessos na ingestão de sal e açúcar, alimentos industrializados e sem qualquer valor nutritivo, são alguns dos fatores que contribuem para a formação deste quadro. A falta de consciência por parte dos adultos, o distanciamento em relação à natureza e seus processos, o ritmo acelerado da vida moderna são alguns dos motivos que levam à configuração deste cenário desfavorável de comprometimento da saúde humana. Portanto, faz-se necessário resgatar os valores, significados e práticas da alimentação natural, ampliando as possibilidades de transformação desta realidade.
A saúde é um requisito essencial para que possamos desfrutar a vida em sua plenitude. Portanto, todas as práticas que objetivam não só a manutenção da saúde como também a prevenção de doenças devem ser encorajadas.
4. Objetivo:
Este artigo tem como objetivo fazer uma revisão bibliográfica do conteúdo antroposófico sobre a alimentação da criança de 0 a 3 anos e convidar todas as pessoas que lidam direta e indiretamente com elas para refletirem sobre suas implicações no desenvolvimento do ser humano. Busca conscientizar os adultos sobre a importância de escolher o alimento adequado para cada fase de desenvolvimento da criança. Pretende também construir um material de consulta para pais e educadores na tentativa de incentivá-los a adotar uma conduta mais eficaz e coerente com as necessidades nutricionais que garantem a saúde.
Durante os três primeiros anos de vida a criança constrói todo um arsenal de sensações gustativas e os hábitos alimentares que a acompanharão por toda a vida, e isso depende, em grande medida, da forma como o adulto significa e conduz as refeições da criança desde a amamentação até a introdução dos alimentos sólidos no seu cardápio diário.
Para alcançar este objetivo algumas questões serão abordadas, entre elas: como se dá o primeiro contato da criança com o alimento; a importância do aleitamento materno; fatores que interferem na boa alimentação; a refeição como base para a vida social; características essenciais de alguns alimentos; entre outros.
5. Metodologia
Este artigo foi elaborado utilizando como metodologia uma revisão bibliográfica de conteúdos acerca da alimentação infantil dentro do universo antroposófico. Foram consultados livros, revistas e outros artigos. Além disso, consultas à internet e jornais foram usados para contextualizar a problemática que gira em torno da alimentação infantil, assim como fornecer dados estatísticos sobre esta realidade.
A prática no trabalho com crianças de 0 a 7 anos, em um jardim de infância Waldorf, assim como a troca de experiência com os pais também contribuíram para a formulação de questões e pensamentos a respeito deste tema.
5.1 Contextualização Teórica
A Antroposofia, ciência espiritual criada por Rudolf Steiner (Áustria 1861 – Suíça 1925) no séc XIX, tem como uma de suas principais características a investigação supra-sensível do homem e da natureza que o cerca. Não entra em contradição com o conhecimento científico, mas acrescenta a ele um enfoque anímico espiritual buscando conhecer verdadeiramente as leis que regem o universo.
Rudolf Steiner desenvolveu seus estudos baseado na concepção do homem trimembrado e quadrimembrado. A trimembração diz respeito ao ser humano constituído de três faculdades anímicas: Pensar, Sentir e Querer com as quais ele interage e se comunica com o mundo. Para que cada uma destas faculdades anímica possa de desenvolver e existir, encontramos, no corpo físico, um sistema correspondente. São eles: Sistema Neuro-sensorial, Sistema Rítmico e Sistema Metabólico Motor.
Estes três sistemas são configurados em grande medida e amadurecem suas funções durante os sete primeiros anos de vida, e frequentemente, a atividade de um deles predomina sobre os outros. Por isso, é muito importante que o adulto esteja atento e busque educar a criança equilibrando a atuação dos três sistemas de forma harmoniosa. Nesse ponto a alimentação tem um papel fundamental.
O sistema neuro-sensorial encontra-se predominantemente na cabeça, sendo representado pelo cérebro, nervos e órgãos dos sentidos. Aqui atuam as forças da consciência relacionadas ao Pensar. Este pólo é constituído pela atuação das forças de mineralização e morte, sendo algumas das suas principais características o frio, a rigidez e a falta de movimento. Todas elas base para o desenvolvimento do pensamento.
O sistema metabólico-motor, ao contrário, encontra-se predominantemente na parte abdominal e nos membros, sendo portador da vitalidade do organismo. É aqui que ocorrem os processos de manutenção da vida como digestão, secreção, reprodução etc. Algumas características são: calor, vigor, movimento e ausência de consciência. É através desse sistema que o homem desenvolve as forças do Querer. O impulso para agir e atuar no mundo, o fortalecimento da vontade no homem, provém do desenvolvimento desse sistema.
Entre os dois pólos encontramos o sistema rítmico, representado no tórax por dois processos essenciais à vida: circulação e respiração. Este sistema, intermediário, possibilita ao homem harmonizar e encontrar equilíbrio dentro de si e em relação ao mundo. É através do Sentir que o homem avalia, por reações de agrado ou desagrado, de simpatia ou antipatia, as impressões recebidas e vivenciadas.
Quando lidamos com crianças é importante observá-las sempre com a pergunta silenciosa: “Como estão relacionados os três sistemas nesta criança:”
Podemos dizer que quando a individualidade tem dificuldade de se apropriar do sistema neuro-sensorial e de suas funções, temos uma criança, denominada pela antroposofia “cabeça grande”. Tais crianças têm a tendência de sonharem acordadas, estando afastadas das atividades terrenas que acontecem ao seu redor. Geralmente, são mais sonolentas, dispersas, pouco ligadas aos estímulos externos e mais conectadas com os processos internos, vitais, principalmente ao que se refere à alimentação. Se por um lado cultiva uma vida interior rica, cheia de imagens e sonhos, por outro, não consegue manter as informações de forma clara em seu pensamento, de forma a tê-las a disposição caso precise.
Se, por outro lado, a individualidade tem dificuldade de se apropriar do sistema metabólico-motor, estaremos diante de uma criança “cabeça pequena”. Neste caso, o sistema neuro-sensorial se sobrepõe e podemos observar uma criança extremamente sensível aos estímulos externos, ligada em tudo o que acontece ao seu redor. Geralmente estas crianças se tornam mais irritadiças, impulsivas e agitadas. Os processos metabólicos não são saudáveis, são crianças que comem de maneira voraz, apressada e irregular. O intestino também não funciona corretamente, tendendo à prisão de ventre por causa dos movimentos peristálticos preguiçosos. Parecem saber de muita coisa, mas na verdade possuem limitações da capacidade criativa e de fantasia.
Mais adiante veremos como o uso do sal e do açúcar pode contribuir para equilibrar e harmonizar a atividades desses sistemas orgânicos favorecendo o trabalho da individualidade da criança no corpo físico.
Já a quadrimembração, nos remete ao processo de materialização do universo ao longo de milhares de anos, à formação dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), dos quatro reinos da natureza (mineral, vegetal, animal e humano) e dos quatro corpos que constituem a natureza humana, são eles:
– corpo físico
– corpo etérico ou vital
– corpo astral ou das emoções
– Eu ou individualidade espiritual.
No presente trabalho, não entraremos em maiores detalhes a respeito da trimembração e da quadrimembração, no entanto, esta nomeclatura será utilizada para trazermos o tema da alimentação sob um olhar antroposófico.
5.2 A Alimentação na Antroposofia
A alimentação, segundo a antroposofia, é uma expressão do desenvolvimento da humanidade e de sua consciência. Ela foi desenvolvida ao longo de milhares de anos, assim como os nossos sentidos, para que o homem pudesse lidar com a matéria do mundo no qual se encontra inserido. Diz que quando o homem come, ele coloca o mundo para dentro de si, coloca matéria para dentro de si, assumindo desta forma, também um corpo físico perecível e degradável.
Na medida em que a humanidade se desenvolveu, os corpos (físico, etérico, astral e Eu) estabeleceram entre si formas de relações, onde o funcionamento de um interfere e depende do funcionamento do outro e vice-versa. Quando, ao longo de sua evolução, o homem começou a ter consciência de si mesmo o corpo astral passou a ter uma ação catabólica e de desgaste sobre os corpos físico e etérico. O pensamento consome energia, e esta realidade fez com que o homem precisasse encontrar formas de restaurar, de repor sua vitalidade. Esta é uma das principais razões pela qual precisamos nos alimentar.
Para a antroposofia, a relação que o homem estabelece com o alimento é também um indicador, uma medida da vontade que ele tem de fazer parte deste mundo. A maneira como nos alimentamos fortalece em maior ou menor medida o funcionamento do corpo e o equilíbrio geral do organismo. Trás mais ou menos vitalidade, sobrecarrega mais ou menos o metabolismo, enfim trás maior ou menor saúde e bem estar ao indivíduo. Os alimentos atuam no organismo humano trazendo qualidades e características inerentes à sua natureza que precisam ser catabolizadas e transformadas dentro do nosso corpo. Para que isso ocorra é preciso “acordar” no homem uma “força” correspondente ao alimento ingerido. Nós não absorvemos diretamente a vitalidade do alimento, mas geramos vida em nós a partir de uma ação de oposição às substâncias ingeridas.
“Não comemos para ter em nós este ou aquele alimento, mas sim para podermos desenvolver em nós as forças que triunfem sobre o alimento. Comemos para resistir às forças da Terra e vivemos sobre ela graças a esse contínuo ato de oposição”. (Rudolf Steiner).
A alimentação é uma atividade ampla e complexa que exige que toda a natureza humana se envolva no processo de digestão e absorção dos alimentos. Isso nos remete a um fato de suma importância: o homem não nasce “pronto”, ele precisa de tempo para tornar-se um ser livre e autônomo, em vários aspectos. A criança, quando nasce, não conta com os corpos físico, etérico, astral e Eu funcionando em toda a sua plenitude e autonomia. Estes são desenvolvidos ao longo dos primeiros 21 anos de vida, período em que se educa uma individualidade através do exemplo e do cuidado fornecidos por outro ser humano.
Dos 21 aos 42 anos, a individualidade completamente encarnada no corpo físico passa a se auto-educar e após os 42 tem início um outro processo caracterizado pelo afastamento da dimensão material.
Considerando esta colocação, concluímos que a alimentação do homem deve acompanhar a fase biográfica em que ele se encontra. Os alimentos devem ser usados e pensados de acordo com as necessidades do organismo da criança, do adulto e do idoso, uma vez que ela existe para servi-los.
Em relação às crianças isto é bastante sério. Como foi dito anteriormente, a individualidade precisa de 21 anos para amadurecer e tomar posse do seu próprio corpo. É só a partir daí que ela age com plena consciência de si mesmo e de seus atos.
Portanto, quanto menor é uma criança, mais entregue, ela se encontra das escolhas que os adultos fazem por elas. Escolhas estas que atuarão na construção do seu corpo e da sua saúde por toda a vida.
5.3 O primeiro alimento da criança: O leite materno
Antes do nascimento, a criança encontrava-se completamente envolvida e protegida pelo ventre materno. É admirável verificarmos quantos envoltórios protegem o embrião:
– o líquido amniótico, no qual o feto nada durante todo o período de gestação lhe garante uma confortável sensação flutuante, protegendo-o contra solavancos e empurrões vindos do exterior, assim como o amortecimento dos seus próprios movimentos dentro da barriga da mãe.
– o útero, um órgão muito especial e singular capaz de moldar-se para abrigar uma nova vida em seu interior. Este grande músculo encontra-se suspenso por diversos ligamentos dentro da estrutura óssea da região ilíaca da mãe abrigando o feto até o momento em que iniciam as contrações que ajudarão na expulsão do bebê. O útero é capaz de concentrar as forças oriundas do plano supra-sensível permitindo-lhe criar e estruturar sua forma humana no plano material.
– Um outro envoltório são as vísceras da mãe, especialmente as alças intestinais, que além de proporcionarem o calor oriundo do metabolismo, funcionam como amortecedor para o útero da gestante.
– Por último temos a parede abdominal com suas diversas camadas e a pele formando uma delimitação que proporciona estabilidade e calor. Todos esses envoltórios protegem o pequeno ser enquanto se forma e desenvolve no ventre materno.
Então a criança nasce, e de repente, todos eles desaparecem. O corpo da criança acha-se nu e totalmente desprotegido fora do corpo da mãe. Um novo mundo lhe é apresentado, a criança vivencia as mudanças de tempo, espaço, peso e temperatura ao seu redor. A luminosidade, os ruídos, os cheiros e os toques penetram na alma da criança pela primeira vez trazendo vivências de dor, medo e insegurança diante das profundas transformações.
Com a primeira inspiração o ar penetra nos pulmões fazendo com que a criança chore e neste instante dois mundos (anímico-espiritual e o físico-terreno) se unem num só corpo. A individualidade adentra o mundo material e se submete às leis que aqui vigoram. O corpo precisará se adaptar a muitos processos para manter-se vivo, entre eles a ALIMENTAÇÃO.
Segundo a Dr Gudrun, durante a gravidez a alimentação do feto tem características primitivas, ocorrendo através do ambiente, dos invólucros que citamos acima. Com o nascimento, e principalmente após o corte do cordão umbilical, desfaz-se também a ligação concreta, material do bebê com a mãe e o alimento materno vai entrar como elemento importantíssimo. No processo de adaptação ao novo mundo, o LEITE da mãe é tudo que restou do abrigo anterior que fora o ventre materno. A partir de agora é como se “A mãe toda vivesse no leite”, como cita Rudof Steiner. O leite além de ser a composição alimentar ideal para a criança, possibilita a transição do plano espiritual para o plano terrestre. Junto com ele o calor humano, físico e anímico que se manifesta no ato de amamentar vai formar o novo invólucro de segurança e proteção para a criança.
Rudolf Steiner ainda nos chama a atenção para o fato de o leite trazer em si as forças vitais cósmicas capazes de despertar pouco a pouco o espírito que dorme na criança. A amamentação é, por isso, considerada o primeiro meio de educação e o veículo para que o ser celestial se torne terrestre. Este período é um tempo sagrado de sublimes acontecimentos no que diz respeito à encarnação da criança e só passado algum tempo o educador (mãe, pai) será capaz de continuar atuando sobre a volição da criança de forma a despertar cada vez mais este espírito adormecido (consciência).
O bebê que é colocado logo após o parto em contato com a mãe procura instintivamente pelo seio e suga-o com muita força e determinação. Essa primeira sucção é a mais forte que existe e estimula a formação e a descida do leite. A criança que, logo após seu nascimento, não tem a oportunidade de sugar o seio materno pode ter comprometido todo um caminho de amamentação, visto que, após algumas horas o reflexo de sugar do recém nascido diminui drasticamente se não for estimulado.
Nos primeiros dias a substância que a criança ingere ao mamar é denominada COLOSTRO. O colostro tem a cor amarelada e transparente, e apesar da pequena quantidade, alimenta e protege o bebê contra infecções nos primeiros dias de vida. Isso porque tem maior concentração de proteínas e anticorpos que o leite propriamente dito e ainda estimula o intestino da criança a se desenvolver. Ele é suficiente para manter a criança nutrida até a descida do leite por volta do terceiro ou quarto dia de vida.
Após a descida do leite mãe e filho vão precisar de um tempo para se adequar à nova rotina. No início, a quantidade de leite produzida é maior que a necessidade da criança. É recomendável que o leite excedente seja retirado por ordenha manual até que o corpo da mãe aprenda a produzir somente a quantidade necessária para a sua criança.
Um outro aspecto importante em relação à amamentação diz respeito à freqüência com que a criança tem acesso ao peito. Atualmente, é recomendação do ministério da saúde que a criança seja alimentada no peito sempre que manifestar essa vontade, sem horários fixos para iniciar, nem para terminar cada mamada. Essa recomendação ficou bastante conhecida pelo nome de “livre demanda”.
Por outro lado, a falta de ritmo em relação aos hábitos alimentares pode ter sua origem neste período. As exigências da vida moderna, principalmente nos grandes centros urbanos tem tornado um grande desafio para o homem encontrar ritmos de trabalho, de lazer, de sono e de alimentação. Todas as funções vitais do nosso organismo, no entanto, são rítmicas. A saúde e o equilíbrio do indivíduo são baseados no ritmo e pequenos distúrbios desses ritmos vitais têm levado o homem a sofrer das mais diversas patologias, tais como o próprio câncer. Assim, na antroposofia, encontramos referências para que as mães busquem estabelecer, ao longo dos primeiros meses de vida, uma rotina de amamentação saudável e de acordo com a necessidade da criança, criando desde cedo hábitos regulares nos horários de alimentação. Na verdade, a própria criança, na medida em que se desenvolve cria um ritmo próprio de alimentação para o qual a mãe deve estar atenta e respeitá-la.
É possível que surjam algumas dificuldades durante o período de aleitamento materno como: ferimento dos mamilos, empedramento do leite, sensação de que o leite não é suficiente para satisfazer a fome da criança e outros. Todas essas questões podem ser contornadas se a mãe buscar as informações corretas em relação à amamentação.
Algumas dicas, retirados do material elaborado pelo Dr Coríntio Mariani Neto (Corintio 2010) serão destacadas aqui:
– O leite materno é o alimento ideal nos primeiros seis meses de vida, pois contem todos os nutrientes necessários para garantir o melhor crescimento e desenvolvimento do bebê. Nenhum outro complemento é necessário, nem mesmo água ou chás durante este período.
– Protege contra doenças, principalmente diarréias, alergias e infecções, sendo por isso considerado a “primeira vacina” da criança.
– O leite materno é digerido com mais facilidade e é melhor aproveitado que o leite industrializado. Além disso, a eliminação de seus resíduos não sobrecarrega o organismo do bebê, como acontece com o leite de vaca.
– É limpo e não contém micróbios, está sempre pronto e na temperatura adequada.
– Sugar o peito exige um grande esforço por parte da criança contribuindo para o desenvolvimento sadio do maxilar, correta formação da arcada dentária, boa deglutição, desenvolvimento posterior da fala e correta respiração.
– É a sucção do bebê que desencadeia e mantém a produção do leite, portanto, quanto mais ele sugar, mais leite será produzido.
– Não existe leite fraco. O leite materno é o ideal para o bebê e toda mãe é capaz de produzi-lo. Para isso a mãe deve ingerir muito líquido, cuidar da sua alimentação e do seu estado emocional. A tranqüilidade e confiança da mãe em relação à amamentação parecem interferir decisivamente na produção do leite.
Segundo a médica e escritora antroposófica Gudrun Burkhard as peculiaridades do gosto do leite materno fará com que gradativamente se desenvolvam as papilas gustativas do neném. Ao contrário dos leites industrializados e preparados que revelam sempre o mesmo gosto, o leite materno apresenta uma diversidade de aromas e sabores à criança que, sendo assim, desenvolve maior disposição e abertura para experimentar novos alimentos futuramente.
5.3.1 O Desmame
O desmame também é muito importante e deve ser feito com calma e consciência pela mãe. A recomendação do Ministério da Saúde é que o aleitamento materno seja exclusivo até os seis meses de idade, podendo ser continuado até o segundo ano de vida ou mais, se assim a criança e a mãe desejarem. Para a antroposofia, o aleitamento materno deve ocorrer até os sete meses, podendo se estender até um ano, quando então a criança deve ser desmamada, pois do contrário ela se liga demasiadamente à corrente hereditária dos pais e da família. Essa ligação excessiva pode passar a satisfazer outras necessidades (por exemplo, emocionais) e dificultar que a criança desenvolva sua autonomia e capacidade de dar continuidade ao processo de apropriação do próprio corpo. Durante os sete primeiros anos a criança lida com uma importante tarefa, segundo Rudolf Steiner, que é a de transformar toda a constituição física herdada em uma nova constituição sintetizada a partir da sua própria força individual. As febres infantis (aumento da temperatura corporal) são revelações dessa transformação acontecendo no organismo.
5.3.2 A Utilização de Bicos Artificiais
De acordo com o material produzido pelo Dr Corintio Mariani (Corintio 2010) a introdução de qualquer bico artificial (mamadeira, chuca, chupeta) deve ser evitada a todo custo, pois interfere na sucção do bebê contribuindo para o desmame precoce.
A mamadeira, em especial, é considerada um grande vilão da amamentação. A criança que tem contato com a mamadeira vivencia um fenômeno conhecido como “confusão de bicos”. Como não é necessário fazer o mesmo esforço para que o leite saia da mamadeira, a criança passa a sugar menos o peito o que diminui a produção do leite e rapidamente a mãe tem a impressão de que o leite do peito não é mais suficiente para alimentar a criança. Além disso, o uso da mamadeira está sendo hoje atrelado ao aumento do índice de obesidade infantil por contribuir para uma menor capacidade de auto-regulação do apetite. Isso significa que os bebês alimentados com mamadeira desde cedo apresentam maior dificuldade de sentir saciedade da fome, segundo revela uma pesquisa feita com 1250 bebês nos EUA pelo Centro de Controle e Prevenção de Doeças (CDC).
Existem dois problemas básicos que giram em torno do uso da mamadeira. O primeiro diz respeito à anatomia e design desses instrumentos que não são adequados às necessidades da criança. Por mais ortodônticos que sejam, os bicos das mamadeiras interferem na formação da arcada dentária, induzem a criança a mamar mais do que ela necessita (devido à maneira passiva como o líquido é absorvido), são de difícil higienização, contribuindo para o aumento de infecções na garganta e no trato intestinal e desestimulam o aleitamento materno. O segundo diz respeito ao que é colocado na mamadeira para alimentar a criança. Atualmente, o uso de farinhas e açucares para engrossar e adoçar o leite tem sido cada vez mais oferecido pelos pais. Estas combinações, no entanto, levam os pais a uma falsa crença de que seus filhos se alimentam melhor. Por um lado, as crianças ingerem maior quantidade de leite (que apresenta sabores doces e “gostosos”) por outro os preparados são verdadeiras bombas calóricas que não oferecem os nutrientes adequados e necessários à criança, principalmente se usados antes dos seis meses de idade. Além disso, todas estas fórmulas que dizem substituir o leite materno, preparados de leite em pó enriquecidos de vitaminas, minerais etc são sintetizados artificialmente, sendo, portanto, desprovidos da vitalidade encontrada no leite materno como já mencionado anteriormente.
Quando, por algum motivo, não for possível o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade faz-se necessário partir para uma alimentação artificial.
Segundo descrito no livro “Consultório Pediátrico” de Wolfgang Golbel e Michaela Glockler esta deverá ser o mais natural possível, dando-se preferência aos leites naturais e não aos leites em pó ou condensados. Devido às diferenças em sua composição e alto potencial alergênico, o leite de vaca deverá ser dado seguindo um criterioso esquema de diluição e preparo que pode ser consultado no livro descrito acima pág. 268.
Se for preciso acrescentar a alimentação artificial ao aleitamento materno seria interessante que a primeira fosse oferecida em copinhos apropriados ou colheres de chá para não desestimular a amamentação natural. Após o desmame os outros alimentos líquidos como chás, sucos, água também deveriam ser oferecidos na forma mencionada acima com a supervisão de um adulto para que a criança não se habitue a tomar mamadeira desnecessariamente.
5.4 A Introdução dos Alimentos Sólidos
Passado o período dedicado ao aleitamento materno exclusivo é chegada a hora de a criança começar a experimentar outros alimentos necessários para o seu desenvolvimento.
A introdução desses novos alimentos deve ser gradual (no máximo um novo alimento por semana, a fim de que o organismo da criança se prepare para digeri-los e a mãe observe possíveis pré-disposições alergênicas) e respeitar o estágio de desenvolvimento que a criança se encontra. Segundo a antroposofia, a dieta da criança pequena deveria ser inicialmente lacto-vegetariana (constituída de frutas, legumes, cereais, leite e seus derivados) e só a partir dos 3 anos, alimentos de origem animal deveriam ser oferecidos de acordo com as características e as necessidades da criança. Sobre este assunto falaremos mais tarde.
Alimentos industrializados devem ser evitados a todo custo, pois roubam força do organismo que precisa despender mais energia para reelaborá-los interiormente. As crianças devem receber alimentos plenos de vida, os mais naturais possíveis e adequados à sua faixa etária. Com o intuito de contribuir para um maior esclarecimento desses alimentos e como eles devem ser oferecidos à criança selecionamos alguns de maior importância para discutir neste trabalho. Abordaremos principalmente seu caráter qualitativo e como eles atuam no organismo da criança, separando-os, desta forma, de acordo com sua natureza (mineral, vegetal ou animal).
5.4.1 O Reino Mineral:
O reino mineral está sujeito às leis físico-químicas, válidas apenas para o mundo físico, material. Nele valem as leis da gravidade, peso, medida e massa, enfim, o elemento quantitativo. Em tempos passados da Terra, este reino ainda não tinha a forma atual, os minerais possuíam outras consistências que não a que conhecemos hoje. Atualmente eles representam, segundo Rudolf Steiner a imagem morta do cosmo. É nele que encontramos o estado final da matéria, a substância. Aqui não existe crescimento, regeneração, vida. (Novos Caminhos de Alimentação, vol. 1, pág 16).
O Sal
O sal é o maior representante deste reino na nossa alimentação. Trata-se de um cristal, um elemento ligado às forças de mineralização da Terra. É uma substância desprovida de vida e utilizada como condimento no preparo dos alimentos. Antigamente, era muito usado na conservação das carnes.
Segundo a antroposofia, sua atuação no organismo humano se relaciona com as forças de encarnação e de desenvolvimento da consciência.
Quando estamos diante de uma criança onde o sistema neuro-sensorial precisa ser estimulado, ou seja, de uma criança cabeça grande, o uso do sal poderá ser indicado como medida terapêutica. A sua atuação fortalece as forças do Pensar fazendo com que a individualidade se ligue mais profundamente ao mundo terreno.
O Açúcar
O açúcar será tratado aqui, por sua elevada propriedade de cristalização e mineralização, semelhante a do sal, no entanto trata-se de um alimento proveniente do reino vegetal.
A introdução dessas duas substâncias na alimentação do homem também acompanhou o caminho de desenvolvimento da humanidade. O açúcar foi utilizado primeiro, através do cultivo da cana de açúcar por volta de 8000 e 5000 a.C. Este é formado nas partes verdes do vegetal, sendo armazenado em raízes, folhas, caules, flores ou frutos sob a forma de amido ou frutose. É uma reserva de energia para o homem, que pode utilizá-lo sem ter de efetuar um trabalho digestivo, o que acontece quando o ingerimos em sua forma industrializada e refinada. Neste ponto, trata-se de uma substância que não estimula a atividade vital dos órgãos como os vegetais frescos, mas substitui, no organismo, uma substância que este é capaz de produzir por si em quantidades suficientes quando goza de plena saúde. As qualidades do ácido, do salgado e do amargo possuem todas elas uma característica mais agressiva, estimulante. O doce, ao contrário, consola, reconforta, envolve, tranqüiliza e dá apoio: também fortalece nossa auto-percepção de modo imediato, e faz com que nos sintamos mais fortes e dispostos em nosso corpo. Esse efeito provoca a tendência à freqüente repetição da ingestão de açúcar. Sentimos o prazer do acréscimo momentâneo de força, sem perceber a instalação do mau hábito, a perda energética que se segue e que tentamos compensar novamente com uma quantidade maior de açúcar.
Atualmente, sofremos de um consumo crescente e exagerado de açúcar que começa a deixar suas marcas na saúde da civilização moderna com o aumento incisivo, sobretudo, da cárie dentária, do diabetes e da obesidade. Estudos revelam que o aumento no consumo de açúcar passou de 28g por pessoa em 1900 para 150g por pessoa nos dias de hoje (Novos Caminhos de Alimentação, vol 1, pág 138).
Na alimentação das crianças devemos evitar o uso do açúcar branco, uma vez que os processos de refinamento e industrialização roubam-lhe toda a força vital eliminando os sais minerais, vitaminas e microelementos que dão suporte à atividade própria do organismo de elaborar o seu açúcar a partir do amido. Quando isso acontece estamos substituindo o exercício da atividade metabólica na criança pela oferta de uma substância de rápida absorção que causa dependência e consequentemente predisposição a uma série de enfermidades, como já foi explicado anteriormente.
O mais indicado seriam preparados de cana integral, que podem ser obtidos em casas especializadas de produtos naturais. O açúcar mascavo industrializado também passa por processos não recomendados, apenas os últimos passos da purificação deixam de ser realizados. A lactose só é útil na fase de lactente, pois tem menor poder adoçante. A frutose normalmente não tem vantagens. A glicose leva a um aumento rápido da glicemia, pois não precisa ser digerida, por isso é recomendada apenas em alguns casos específicos. O mel é recomendado após 1 ano de vida e em quantidades moderadas, uma colher de chá por dia misturada aos alimentos.
O ideal é que o organismo seja incentivado a elaborar o açúcar de que necessita através da ingestão de vegetais e cereais. A vontade de comer doce deveria ser suprida, sempre que possível, pela ingestão de frutas (secas e naturais).
Quando estamos diante de uma criança onde o sistema metabólico-motor precisa ser estimulado, ou seja, de uma criança cabeça pequena, o uso do açucar poderá ser indicado como medida terapêutica. A sua composição altamente energética estimula o funcionamento do metabolismo e fortalece o Querer trazendo vitalidade para o organismo da criança.
5.4.2 O Reino Vegetal:
Quando tratamos do reino vegetal, a substância passa a obedecer também à outras leis. Podemos dizer que a planta é a imagem viva do cosmo. Bircher Benner apontou para o elemento qualitativo na alimentação dizendo: “Todos os valores nutritivos, independentes de sua denominação – proteínas, gorduras, hidratos de carbono, minerais ou vitaminas – são, em sua essência, tons ou cores da luz do sol”. A planta é o resultado da interação entre as forças físicas terrestres e as forças etéricas, cósmicas. Ao mesmo tempo que se ligam à terra, acolhendo desta água e minerais; crescem em direção ao sol de onde recebem calor e luz, dependendo dos dois pólos para se desenvolverem.
Explicar um pouco antes de colocar a citação
 “Do ponto de vista alimentar, interessa-nos a relação tríplice da organização humana e das plantas. Poderíamos dizer que no homem encontramos a planta invertida, pois o processo radicular (das raízes) tem a ver com o nosso sistema neuro-sensorial, o sistema da haste e das folhas com o sistema rítmico, e o processo da flor e do fruto com o sistema metabólico”. (vol 1 pag 40).   
Na raíz encontramos os processos de absorção dos minerais responsáveis pela estruturação e forma específica de cada vegetal. Daí partem os impulsos endurecedores da planta. A raíz absorve os minerais desgastando a terra ao seu redor, assim como o cérebro capta seletivamente os pensamentos desgastando substância viva (queimando energia) no interior do nosso corpo.  Nas folhas se passam os processos de fotossíntese troca gasosa com o ambiente, assim como no homem o sentir se relaciona com essa esfera mediana e de troca com o mundo. No caule os processos de crescimento e repetição rítmica se assemelham à disposição de nossas costelas em relação às vértebras da coluna.
Por último, nas flores e nos frutos encontramos a região onde se passam as profundas mudanças metabólicas da substância, tais como a formação de açucares, óleos, proteínas e vitaminas. Essa é também a região mais quente da planta, calor semelhante ao encontrado no sistema metabólico motor. Tanto em um como no outro acontecem também os processos ligados à reprodução.
Sendo assim, a ingestão de raízes atuará sobre o sistema nervoso humano, a ingestão de caules e folhas sobre o sistema rítmico e a ingestão de flores e frutos sobre o metabólico motor. Isso deve ser considerado ao pensar a alimentação desde os primeiros anos de vida, na tentativa de harmonizar o corpo através daquilo que ingerimos.
Frutas
Gudrun Burkhard fala em seu livro Novos Caminhos de Alimentação que as frutas são as maiores fontes de vitaminas encontradas na natureza. Quando atingem seu grau de maturidade, principalmente se colhidas na época certa, concentram o máximo de forças vitais em seu interior. No homem atuam especialmente sobre os processos formativos do sangue, renovando-os constantemente, e também sobre a circulação. Ativam os processos metabólicos e de calor do nosso organismo, estimulam o peristaltismo intestinal e é considerada uma vitalizante primordial do organismo devido à concentração de vitamina C (Burkhard 2009).
Segundo Dr Darlan Ferreira, em palestra proferida no curso de formação em pedagogia waldorf de Belo Horizonte, é recomendado iniciarmos a oferta dos alimentos às crianças pelos sabores adocicados encontrados nas frutas. É importante cuidar para que estas sejam bem lavadas e de procedência conhecida, preferencialmente orgânica, uma vez que pela primeira vez o organismo da criança vai entrar em contato com outras substâncias e a ingestão de agrotóxicos, pesticidas, bactérias e outros, poderiam ter uma ação devastadora no organismo infantil.
A fruta cozida ou assada é indicada para facilitar a digestão no princípio, em seguida podemos oferecer em forma de sucos (laranja serra d’água), amassadas (banana, mamão) ou raspadas (maça, pêra)
Após os primeiros experimentos, passamos a preparar uma papa mais consistente e nutritiva que apresenta em sua composição os seguintes elementos:
– Uma fruta cozida ou assada (banana, pêra, maçã…)
– Um cereal integral cozido (arroz, aveia, trigo, cevada…)
– Uma oleaginosa (castanha do pará, avelã, amêndoa, nozes) ou uma colherzinha de azeite.
– Uma outra fruta da época que não precisa ser cozida.
– Pode-se ainda acrescentar ameixa preta ou damasco, cozidos e algum derivado de leite.
Legumes e Verduras
Após ter se habituado às papas doces, introduzimos na alimentação da criança a papa salgada. Os legumes e verduras são reconhecidos pela sua ligação com as diversas forças da natureza viva e fornecem toda uma riqueza de sais minerais e micronutrientes ao organismo humano.
Alguns cuidados devem ser tomados no preparo das papas salgadas como por exemplo o tipo de panela utilizado (as de alumínio e de pressão devem ser evitadas), a quantidade de água adequada e o tempo de cocção de cada elemento. Raízes levam mais tempo para cozinhar do que folhas e frutos. As sopinhas ou papas devem ser acrescidas de algum cereal integral e uma pequena quantidade de gordura: meia colher de chá de manteiga, óleo de girassol ou azeite de oliva.
Cereais
Os cereais começaram a ser cultivados na antiga civilização persa, em torno de 5000 a.C e desde então formaram a base da agricultura dando à humanidade novas condições de vida e moradia. Do ponto de vista qualitativo os cereais distinguem-se pelo fato de estarem sujeitos a uma exposição particularmente intensa e direta à luz solar. Caracterizam-se ainda por permear intensamente a terra com suas raízes unindo-se firmemente com o elemento mineral. Possuem a peculiaridade de não dispersar suas sementes, mas de mantê-las unidas em forma de espigas. Essas espigas são sustentadas pela planta tal qual uma coroa real, essa força de sustentação tem ligação direta com o ser humano, ajudando-o a erguer-se e adquirir a posição ereta no mundo, o que sabemos tornou-se a expressão do Eu, da individualidade humana na Terra.
“Para os povos antigos, o ato de semear e colher os cereais eram acompanhados de rituais sagrados – os grãos eram o presente do Deus Pai e da Mãe Terra. De fato, as gramíneas (cereais) são as plantas em que as forças da terra e do sol estão em equilíbrio” (vol 2 pag 124). É exatamente por este motivo que atuam nos três sistemas do corpo humano: metabólico-motor, rítmico e neuro-sensorial, ativando todo o organismo do homem em equilíbrio. Como possui forte relação com a terra e com o elemento mineral carrega em si alto teor de silícea que serve de intenso estímulo ao sistema nervoso e órgãos dos sentidos. Rudolf Steiner descreve em sua “Filosofia da Liberdade” que o pensar vivo só pode ser incentivado pela ingestão de cereais integrais. A atuação do açúcar no cérebro também só é saudável quando este vem acompanhado pelo complexo de vitamina B, encontrado na cutícula dos cereais. Caso contrário, quando o açúcar puro entra no organismo, ele cai rapidamente na corrente sanguínea e o cérebro fica exposto ora a um excesso de açúcar, ora a sua falta, não podendo desempenhar suas funções de forma correta e equilibrada.
Todo o metabolismo também é estimulado pela ingestão de cereais integrais. Sua alta taxa de hidratos de carbono é transformada em amido e glicose. A queima da glicose produz o calor necessário para a atividade muscular, os músculos são os instrumentos de nossa volição e atuação na Terra. O fígado é estimulado, pois lá a glicose é transformada em glicogênio. Osdentes são intensamente ativados através da mastigação, assim como as secreções glandulares e salivares. A película dos cereais, rica em vitaminas, proteínas, sais e semicelulose atuam no peristaltismo do estômago e intestinos. Também no sistema rítmico, os cereais desempenham um papel importante, fortificando coração e pulmão. O magnésio encontrado na película atua diretamente sobre o funcionamento do coração, organizando o ritmo cardíaco. Também o ferro, tão importante para o sangue e a oxigenação, é abundante no grão. Rudolf Steiner numa palestra dada no Goetheanum disse: “O coração é luz condensada e é estimulado pela alimentação rica em luz”, como vimos, trata-se dos cereais integrais.
A importância de ser integral refere-se à capacidade de ativar profundamente o metabolismo do corpo, dando suporte a uma integração harmoniosa das suas funções. Quando ingerimos produtos processados as vitaminas, sais minerais e demais micro-elementos são indistintamente eliminados, restando muitas vezes apenas o amido. Em função disso, obtem-se um produto parcial, altamente refinado, e ainda modificado por uma série de aditivos químicos (conservates, corantes, etc) que o processo de industrialização lhe acrescentou. Para metabolizar tal produto o organismo precisa fazer uso de suas próprias reservas de vitaminas, sais minerais e microelementos.
Em função disso, recomenda-se que a alimentação da criança seja rica em cereais integrais. Estes podem ser oferecidos por volta dos sete meses, nas papas de fruta ou salgada como já foi citado. É importante que sejam bastante cozidos no princípio para auxiliar no processo digestivo da criança que ainda está em formação. Além disso, os cereais apresentam correspondências com as qualidades planetárias que determinam as qualidades de cada dia da semana. Rudolf Steiner em suas palestras sobre agricultura biodinâmica, sobre medicina e sobre antroposofia geral refere-se a essas forças planetárias e sua atuação sobre o Homem, sobre a Terra e sobre os reinos da natureza. Estaremos estimulando o nosso organismo se procurarmos nos alimentar com a maior variedade possível de cereais. Segue abaixo a correspondência entre os cereais e os dias da semana:
Trigo          Sol          Domingo
Arroz         Lua          Segunda
Cevada      Marte       Terça
Painço       Mercúrio  Quarta
Centeio     Júpter        Quinta
Aveia        Vênus        Sexta
Milho         Saturno    Sábado
5.4.3 O Reino Animal:
Nos animais há um novo complexo de forças. Além da vida, existe agora elementos como sensação, locomoção no espaço, instintos (de sobrevivência, nutrição ou reprodução). Trata-se da incorporação de uma nova entidade, denominado por Rudolf Steiner de corpo astral. A substância não é apenas vitalizada como no reino vegetal, mas agora também astralizada, adquirindo, portanto, qualidades e forças formativas diferentes do vegetal.
No reino animal tem início os processos de anabolismo e catabolismo. O primeiro lida com forças construtoras que formam substâncias vivificantes e regeneradoras. O segundo lida com forças de desgaste e destruição, gerando assim, produtos de excreção que quando não eliminados tornam-se tóxicos para o organismo.
Carnes
A utilização de carnes no cardápio infantil é bastante discutida e existem controvérsias a seu respeito.
Quantitativamente, a carne é descrita como uma das principais fontes de proteínas que conhecemos, além de ser rica em nutrientes como lipídeos, vitaminas (complexo B) e minerais (como ferro e zinco). As proteínas são fundamentais para o funcionamento do nosso corpo, pois é a partir delas que sintetizamos as nossas próprias proteínas durante o crescimento e a renovação dos tecidos.
Segundo o especialista Pedro Eduardo de Felício, membro do comitê técnico do SIC (serviço de informação da carne), a proteína da carne é a mais completa por apresentar um perfeito equilíbrio de aminoácidos essenciais, isto é, aqueles que o corpo humano não sintetiza a partir dos demais e que, por isso, devem estar presentes nos alimentos ingeridos. Outros produtos de origem animal, como os ovos ou o leite e seus derivados, também são fontes de proteínas completas. Já as proteínas encontradas nos alimentos de origem vegetal são deficientes em um ou mais aminoácidos essenciais e, portanto, devem ser consumidas em combinação com cereais e leguminosas.
Qualitativamente, a antroposofia trás um olhar um pouco diferente. De acordo com Goebel e Glockler no livro “Consultório Pediátrico” (2001), desde que tornaram-se conhecidas certas doenças de deficiência protéica, causada pela falta de certos aminoácidos essenciais, passou-se a dar uma atenção muito grande ao consumo destas. Esses componentes protéicos especiais são encontrados em abundância nos produtos de origem animal, mas também podem ser encontrados (em menor quantidade) nas leguminosas, amêndoas e nozes.
O leite materno é um alimento com baixo teor protéico (cerca de metade do leite da vaca) e é o alimento ideal para a primeira fase de vida. Acredita-se que o consumo de proteínas (principalmente as de origem animal) deva ser introduzido na alimentação da criança com parcimônia e gradualmente. Sendo assim, a autora propõe que se siga com o modelo de nutrição oferecido pelo leite materno até pelo menos os três anos de idade. As proteínas durante essa fase deveriam provir de outros alimentos tais como os cereais integrais, as leguminosas e os derivados de leite. Após os três anos, quando desponta na criança os primeiros lampejos de auto-consciência, também se manifesta de modo mais intenso o instinto individual para este ou aquele alimento. Neste caso, a carne poderia ser introduzida de acordo com as características e a necessidade da criança.
Nos países da América Latina, o consumo de carne é muito elevado, naturalmente torna-se mais difícil e trabalhoso para os pais organizar um cardápio com restrição de carne para as crianças, pela simples falta de hábito e informação.
A carne vermelha, ao contrário do leite, é permeada pelo sangue do animal o que faz dela um alimento altamente comprometido com as forças da matéria. Na história, o consumo de carne se deu na medida em que o homem se distanciou do mundo espiritual e se conectou com a materialização do corpo e do espírito. A carne rebaixa o homem a um estado de maior animalidade, agressividade e ligação com seus instintos por despertar forças correspondentes à astralidade do animal durante o processo digestivo.
Como a criança ainda é um ser cósmico, que está chegando na Terra, a ingestão desse alimento não contribui para o despertar natural e saudável da sua individualidade.
Ovos
De acordo com a médica e escritora antroposófica Dr Gudrun, o ovo, assim como a carne não deveria fazer parte do cardápio infantil nos primeiros anos de vida. Sem dúvida, o ovo é uma das mais potentes fontes de proteínas, gorduras e ferro. Porém, qualitativamente, ele contém potente capacidade germinativa de formar um novo ser, portanto é um alimento altamente energético que atua na astralidade e na sexualidade do ser humano. O ovo deve ser introduzido gradativamente na alimentação da criança a partir dos 3 anos e liberado somente após os 5. Recomenda-se que inicie a oferta pela gema e mais tarde o ovo inteiro. Em seu consultório, a médica relata observar que as crianças alimentadas com ovos geralmente tornam-se inquietas, nervosas, muitas vezes dominando toda a família, não sabendo onde colocar tanta “energia”.
5.5 A alimentação como base para a vida social
A refeição, na antiguidade, possuía um significado todo especial. Não se tratava apenas de receber alimento no sentido físico, mas também de receber o “alimento espiritual”. A refeição comum estabelece laços sociais entre os homens, a própria palavra “companheiro” contém este elemento: com = comum / pan = pão.
Até hoje a refeição permeia a vida social dos homens. O alimento contribui para a formação de uma atmosfera de troca e alegria entre as pessoas e por isso está presente nas mais variadas situações: encontros amorosos, rituais de casamento, batismo, festas de aniversário, encontros para tratar de negócios etc. Quando as pessoas se sentam juntas em volta de uma mesa ocorre a união do espiritual que vem do alimento com anímico das pessoas, formando uma aura toda especial. É muito comum associarmos determinados alimentos com situações e sentimentos vividos num dado momento. A alimentação tem, portanto, a capacidade de assumir significados emocionais, tanto positivos quanto negativos. Podemos ser tomados de felicidade ao sentir o cheiro do bolo que nossa avó fazia quando éramos crianças e também podemos sentir náuseas e calafrios se nos deparamos com um alimento que esteve presente em uma situação desagradável da nossa vida.
Na história da arte podemos encontrar duas imagens arquetípicas que nos falam desse caráter social da alimentação, são elas: A Santa Ceia, onde Cristo reparte o pão e o vinho com os 12 apóstolos e a Távola Redonda do rei Arthur, na Idade Média.  Nelas, vislumbramos grandes virtudes sociais como: partilha, ponderação, gratidão, entre outras.
Assim também, no nosso dia a dia a refeição pode ser ou não uma oportunidade de encontro entre a família. Para isso é preciso criar um ambiente adequado de silêncio, tranqüilidade, sem correrias, televisão, telefone, rádio e demais fatores que invadem a vida do indivíduo moderno. Neste momento podem surgir conversas amistosas, verdadeiros momentos de pausa e encontro entre pai, mãe e filhos. O que importa não é a quantidade de alimento, mas a atitude das pessoas, principalmente dos adultos que sustentam o ritual.
Em relação às crianças, a refeição é um dos maiores instrumentos de educação das habilidades sociais. Desde o nascimento, a amamentação desempenha um papel muito importante ao criar uma relação de extrema intimidade entre a mãe e filho (a primeira relação social da criança) que nos faz perceber pela primeira vez que nós, seres humanos, precisamos uns dos outros e existimos uns para os outros. Mais tarde, na mesa, a criança observa atitudes como: respeito, veneração, capacidade de esperar a sua vez, disponibilidade para servir ao próximo, entre outras. Todo o ambiente é percebido atentamente por ela, a organização da mesa, disposição dos utensílios, o preparo e o cuidado com o alimento, a forma de se servir, os aromas, os sabores… todas essas impressões são registradas na alma da criança e levadas para a vida das relações.
6. Conclusão:
O tema desenvolvido neste artigo me suscitou grande interesse principalmente por causa do grande número de pais que queixam sobre a alimentação dos filhos. Em rodas de amigos e principalmente no ambiente do jardim de infância, no qual trabalho, surgem com freqüência, questionamentos e declarações do tipo: “ Joãozinho parou de comer”,
“Joãozinho não gosta de fruta e verdura, só come a carninha…”, e principalmente “ Mas ele adora chocolate, quê que eu posso fazer?”. Enfim, ouvindo comentários desse tipo e observando a conduta dos adultos em relação às crianças pude ver que é grande a insegurança dos pais em relação primeiro às necessidades da criança e segundo à forma de conduzir a alimentação nos primeiros anos de vida. Os pais parecem confusos diante de tantas informações disponíveis e não sabem discernir entre o essencial e o supérfulo.  Muitos demonstram grande medo dos filhos não comerem e não se desenvolverem de acordo com as tabelas de crescimento, outros não sabem como lidar com as preferências das crianças por doces e alimentos industrializados, outros parecem desconhecer por completo a importância de uma alimentação natural para a saúde, e outros não dispõe de tempo e interesse para tratar deste assunto. Enfim, esses e outros motivos acabam levando os adultos a cederem às vontades da criança que passa a decidir, por si mesmas, o que elas querem comer.
Além disso, pude perceber que são muitos os fatores que interferem na alimentação de uma família, entre eles destaco dois como os que mais me chamaram a atenção:
O primeiro se refere à perda do significado e dos rituais que permeavam a alimentação em outras épocas trazendo toda uma atmosfera sagrada para essa atividade. Como falamos ao longo deste artigo a alimentação é um dos retratos do desenvolvimento da consciência humana e à medida que a civilização tornou-se mais ligada à dimensão material o alimento também assumiu esta característica. Hoje, a ciência desenvolve fórmulas que contém todos os nutrientes de que o corpo necessita, mas se esquece da vida que permeia o alimento proveniente da natureza. A era industrial e mecanicista tem caminhado no sentido de transformar os alimentos em fórmulas prontas, práticas e desprovidas de vida. Há quem diga que dentro de alguns anos nos alimentaremos apenas de pílulas. Além disso, a entrada da mulher no mercado de trabalho e consequentemente a saída do lar e distanciamento dos cuidados em relação a ele contribuem para extinção dos hábitos de alimentação caseiros. A delegação dos cuidados da casa a terceiros e o ritmo desenfreado de trabalho dos adultos favorecem e estimulam esta forma de alimentação que vivemos hoje: comidas industrializadas, prontas e “mortas”. Comer se tornou mais uma das várias tarefas que temos de executar ao longo do dia. Entendo que o caminho para reverter essa situação será uma escolha individual de auto-educação e consciência. Cada homem precisará resgatar dentro de si o significado e a importância de voltar a se alimentar de forma espiritualizada.
O outro fator, que também se liga ao contexto descrito acima, diz respeito ao despreparo dos pais para agirem no dia a dia com as crianças. A forma como o alimento é oferecido, a expectativa do adulto que oferece o alimento, o ambiente, o ritmo e outros elementos também precisam ser considerados, uma vez que são os responsáveis pela formação dos hábitos alimentares na primeira infância. Deixarei aqui algumas orientações que podem servir de ajuda neste sentido:
  • Desde a amamentação, e de acordo com as necessidades da criança, deve-se buscar estabelecer um ritmo nos horários da refeição. O ritmo faz com que a criança se sinta segura ao longo do dia e contribui para a percepção das sensações de fome e saciedade que a criança vivencia no interior do seu próprio corpo. As crianças que “beliscam” o dia todo não conseguem sentir fome e por isso se interessam menos pela refeição.
  • O ambiente deve ser preparado e adequado às necessidades da criança. Deve-se zelar pela calma, tranqüilidade e silêncio neste momento. A utilização de ferramentas como televisão, músicas e brinquedos para distrair a criança favorece a aquisição de maus hábitos alimentares, além de suscitar na criança a impressão de que o alimento e a refeição têm um papel secundário e de menor importância.
  • A postura e a atitude do adulto que alimenta a criança são de suma importância. Segundo a pediatra húngara Emi Pikler, o adulto deve estar inteiramente presente e dedicado à criança durante os cuidados básicos com o seu corpo, tais como: troca de roupas, banho, alimentação e sono. Além disso, deve comunicar à criança, olhando nos seus olhos, tudo o que ele for fazer, por exemplo: “agora vou servir o seu prato e vamos nos sentar para almoçar”. Dessa forma pretende trazer a atenção da criança para o que está acontecendo e não distraí-la do processo.
  • Outra questão muito abordada pela pediatra Emi Pikler é a questão da autonomia. O adulto deve estar atento e conhecer a fundo as etapas do desenvolvimento infantil para oferecer à criança a autonomia na medida certa das suas capacidades. A criança pequena, inicialmente, deve ser alimentada no colo, envolvida pelos limites seguros dos braços do adulto. Então, gradativamente é convidada a participar mais das tarefas. Assim, após algum tempo passa a se sentar sozinha em sua cadeira, ganha uma colher para manusear o alimento, e vai ganhando autonomia até conseguir se alimentar sozinha inserida no ambiente dos adultos.
  • Da mesma forma, os alimentos oferecidos e os utensílios utilizados devem acompanhar o desenvolvimento da criança. As papas de fruta e sal devem ser substituídas por alimentos sólidos à medida que a criança seja capaz de mastigar. Os dentes devem ser estimulados, a partir do oitavo mês, com crostas de pão, cenoura crua e outros. Os líquidos devem ser oferecidos em colher ou copo, nunca em mamadeira por tudo o que já foi descrito anteriormente.
  • As crianças devem ser observadas e respeitadas em relação à regulação de seu apetite. Não se deve forçar a criança a comer nenhuma colher sequer, a mais do que ela comeria de bom grado. Além disso, jogos emocionais e permutas para a criança comer mais são completamente desaconselhadas, uma vez que associam o ato de comer a sentimentos de medo, necessidade de aceitação e recompensas.
Com este trabalho espero sensibilizar alguns adultos sobre a importância de buscarem resgatar o verdadeiro sentido e significado da alimentação. Oferecendo ferramentas para lidarem com a introdução desta prática na vida da criança pequena e na construção de hábitos mais saudáveis desde cedo. Dessa forma torna-se possível transformar uma realidade desfavorável novamente em uma prática consciente e permeada pela vida.
7. Referências Bibliográficas:
GOEBEL, WOLFGANG ; GLOCKLER, MICHAELA. Consultório Pediátrico: Um Conselheiro médico-pedagógico. Tradução Dr Sônia Setzer. 3ª Edição – 2002. São Paulo. Editora Antroposófica. 560p.
BURKHARD, GUDRUN. Novos Caminhos de Alimentação. Volumes 1,2 3 e 4.
5ª Edição. São Paulo: Ed Antroposófica. 2009.
BRUNO, MARIA LUCIA. Aroma, Paladar e Saúde: Orientações, receitas e cardápios da culinária antroposófica. São Paulo: Ed Antroposófica. 1992. 135p.
STEINER, RUDOLF/GLOCKLER, MICHAELA. Os Tipos Constitucionais nas Crianças: Três palestras de Rudolf Steiner comentadas em três conferências da Dr Michaela Glockler. 3ª Edição. São Paulo: Editora João de Barro. 2007. 93p.
HASSAUER, WERNER. O Nascimento da Individualidade: A gênese humana e a moderna obstetrícia. Tradução de Liselotte Sobotta. São Paulo: Ed. Antroposófica. 1987. 101p.
HECKMANN, HELLE. Jardim de Infância: Estruturando o ritmo diário segundo as necessidades da criança pequena. Tradução Jacira Cardoso. 1ª Edição. São Paulo: Ad Verbum Editorial. 2008. 47p.
NETO, CORINTIO MARIANI. Dicas sobre Aleitamento Materno. Projeto editorial e gráfico Casa Leitura Médica. São Paulo. 2010.

MAYSA HELENA DE AGUIAR. Crianças estão consumindo produtos industrializados antes dos seis meses. Disponível em: revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI80971-15149,00.html. Data de acesso 10 junho de 2011.

ANA PAULA PONTES. Anemia em crianças: Ministério da Saúde revela que 20% delas têm deficiência de ferro. Disponível em: revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI69886-15149,00.html. Data de acesso: 10 junho de 2011.

Crianças hiperativas?

SOCIEDADE HIPERATIVA: CRIANÇAS HIPERATIVAS
Por: Maeve Vida e Ligia Miragaia

As crianças sensíveis estão entre nós por toda a parte, são nossos filhos, sobrinhos, filhos de amigos ou nossos alunos. São
muito ativas, olhar penetrante, alegres e profundas. Falam coisas que, muitas vezes, parecem não ter qualquer conexão com nossa vida cotidiana. São como lembranças de uma rica vida interior, fluindo para o dia a dia. E elas vieram com uma missão: ajudar a transformar e reorganizar nossa confusa sociedade. Elas estão para nos lembrar que os grandes mestres da Humanidade que aqui já estiveram, nos deixaram os mais variados mapas do caminho a percorrer para encontrar a harmonia dentro de si.

Essas crianças estão chegando como um alerta:

“Parem um pouco, questionem seus hábitos, acalmem-se, respirem…zai thai pira
Vamos nos ajudar a praticar os valores eternos que temos dentro de nós”.

Em uma sociedade hiperativa como a nossa, essas crianças são tidas como desajustadas. Claro, estamos fornecendo o alimento errado para suas doces almas.

O alimento que precisam, para não adoecerem, não é o vídeo-game, a televisão, o computador ou a comida fast-food. Elas precisam do tempo de seus pais para passear de mãos dadas no parque, observar o pequeno mundo mágico dos insetos, que sobrevive em meio ao concreto e ter tempo livre para olhar as nuvens no céu.

Na verdade, elas vieram para nos redimir. Para nos fazer lembrar que somos seres perfeitos por herança divina. Na verdade, não são elas as hiperativas: somos nós.

Suas almas apenas anseiam por retomar o contato com os ensinamentos mais profundos que já tiveram contato e se sentem incomodadas quando não são colocadas em um ambiente adequado, com um conhecimento superficial da existência humana, que nada lhes acrescenta. Sem contato com a Natureza, sem carinho e atenção que necessitam no dia a dia, com excesso de estímulo eletrônico, sem poderem se expressar artisticamente através da música ou da arte, enfim, sem poder exercer sua espiritualidade no cotidiano, sentem-se tolhidas em sua grandeza. Como queremos que elas se comportem bem?

Não compreendemos que para acalmá-las, devemos oferecer a elas a simplicidade de uma vida equilibrada. Permitir que elas possam brincar com objetos simples, estar em sintonia com os elementos da Natureza e com a sua própria natureza.

Elas precisam viver de acordo com seu ritmo infantil e não ao ritmo acelerado e estressante do universo adulto atual. E precisam ser preservadas de conteúdos que a despertem para o consumo, violência e para uma sexualidade precoce.

Nós todos somos, como sociedade, responsáveis por elas. Necessitamos alimentá-las do exemplo de vida dos grandes santos, nossos verdadeiros heróis, que nos ensinam sobre como viver nesse mundo, mantendo uma vida permeada de virtudes e valores. As crianças sensíveis anseiam por uma reconexão com a vida maior, que flui dentro de todos nós. Elas querem ir muito além de uma vida materialista e vazia, querem se sentir seguras, confiantes e felizes.

Querem ser tratadas na sua individualidade única e na sua universalidade intrínseca, e não como seres nascidos produzidos em massa. Elas estão sedentas do conhecimento maior que vem do contato com o mundo espiritual. E o que nós adultos fazemos com ela?

Queremos que fiquem quietas, usando a droga dos eletrônicos e rotulamos levianamente essas crianças de hiperativas.Quando não fazemos pior, dando remédios à base de ritalina para acalmá-las.Drogamos essas crianças, como fazemos com a nossa criança interior, quando ela pede calma, atenção e aconchego. Não compreendemos a grandeza da missão que elas e todos nós temos. Não percebemos que essas crianças vieram para nos ensinar que todos precisamos de tempo, paz, amor e proteção.

No fundo, tudo que essas crianças estão desesperadamente nos pedindo é amor. Só o amor pode ser a chave para a compreensão do seu universo e ela compreenderá tudo que nós adultos dissermos a ela. Mas sem essa chave, nada e ninguém poderá penetrar em seu mundo. Elas podem se tornar autistas, agitadas ou portadoras de doenças graves.
Mas como oferecer isso a elas, se nós adultos não sabemos o que é a paz e como estabelecer o contato com ela? E é aí, neste ponto, que nossa sociedade deve parar e refletir.

Para dar o amor altruísta, calmo e seguro que elas precisam, necessitamos estar em paz conosco mesmos, com a comunidade ao nosso redor, pois o amor é como uma onda gigantesca, adormecida dentro de nós, que nos envolve totalmente quando permitimos que ele se manifeste, nos dando um tempo para simplesmente observar e analisar nossa existência. Quando permitimos despir a capa do ego e olhar para dentro da alma. Quando deixamos fluir o que somos em essência, o que já está perfeitamente pronto, dentro de nós. Precisamos apenas tirar os véus que o recobrem: a pressa, o egoísmo, a ansiedade, a irritação, a vaidade, a ambição… quantos véus inúteis para nossa felicidade.

Esse caminho de volta para nós mesmos é possível através da meditação, um dos caminhos que pode nos mostrar onde está a porta para essa estrada luminosa do amor, que nos levará à compreensão total desses seres divinos, que podem ser nossos filhos, filhos de amigos, nossos alunos, não importa. Todos somos responsáveis pela felicidade das crianças do planeta.

Por: Maeve Vida e Ligia Miragaia, autoras dos livros: Gandhi, o Herói da Paz; Francisco, o Herói da Simplicidade; O Caminho da Flor. Maeve é ainda autora de Não ao Consumismo, Sim ao Heroísmo; Papai e Mamãe Viraram Amigos.

Medo do parto

Por que o parto natural é tão temido? É cultural.
Para a parteira norte-americana Shari Daniels, do programa Central de Bebês, do canal Discovery Home & Health, dar à luz é um milagre — e todas as mulheres saudáveis deveriam, ao menos, tentar o parto natural

Por Malu Echeverria

Em 30 anos de profissão, a parteira norte-americana Shari Daniels trouxe ao mundo mais de 10 mil bebês.
O primeiro foi a própria filha, num hospital, no início dos anos 70. O obstetra e as enfermeiras não levaram em consideração as contrações da grávida, deixando-a esperar no quarto. “Tive, então, de parir minha primeira filha sozinha, com a ajuda do meu marido”, diz Shari, que tem mais seis filhos, dos quais três são adotivos.
Indignada com a humilhação, achou que deveria fazer algo. Foi quando deixou de lado a psicologia e resolveu estudar o parto natural birthhumanizado. Desde então, ela ajudou a abrir casas de parto nos EUA, no México, em Israel, na Índia, no Equador e na Jamaica. Em 1977, criou a primeira escola americana para parteiras nos EUA, na qual já treinou mais de 500 profissionais de costa a costa.

Há dois anos, comanda o Miami Maternity Center, maternidade especializada em parto natural, onde é gravado o programa Central de Bebês, do canal a cabo Discovery Home & Health.

Exceto pelo cheiro de hospital, a maternidade tem ares de casa.

Fotos de bebês e de mulheres grávidas enfeitam as paredes.

Em cada sala de parto, há uma cama de casal e uma banheira, para que as gestantes fiquem à vontade.

O pai é presença comum, tanto no pré-natal quanto no nascimento do bebê. Ali, 80% dos partos são dentro d’água – sem anestesia e, salvo raras exceções, episiotomia. Somente 7% deles terminam em cesárea. Nesses casos, as gestantes são encaminhadas ao hospital mais próximo, a cinco minutos da maternidade.

A seguir, Shari conta por que, na sua opinião, não existe melhor jeito de nascer.

Por que o parto natural é tão temido?É cultural.
Até o século passado, não havia muitas opções.
Durante a Segunda Guerra Mundial, com os médicos fora do país, as mulheres começaram a se dirigir aos hospitais para dar à luz.
Como tinham de esperar na mesma enfermaria, ouviam os gemidos umas das outras.
A histeria, obviamente, alastrava-se.
Os médicos começaram, então, a administrar anestesia para acalmá-las.
As mulheres descobriram que poderiam optar por não sentir dor ou até mesmo planejar uma cesárea, transformando o parto em algo mais previsível.
Foram convencidas de que são fracas e, portanto, não conseguiriam parir sem remédios. Acontece que, em geral, elas desconhecem os riscos envolvidos nessas intervenções, os quais são evitados no parto natural.

É possível se preparar psicologicamente para o parto?
Sim, basta encarar a experiência como algo natural. Milhões de bebês ao longo da história da humanidade nasceram desse jeito.

Como você ajuda as mulheres a lidar com a dor?
Há várias técnicas que podem ser úteis. Ter a barriga submersa em água morna, por exemplo, produz um efeito calmante, como podemos observar nos partos que realizamos dentro d’água. Mas o principal é concentrar-se na maravilhosa experiência de trazer uma criança ao mundo.

Você é contra anestesia?
A prática de evitar remédios durante a gravidez deve ser mantida no parto, a não ser que exista realmente indicação médica. Acreditamos, portanto, que um parto sem o uso de medicamentos é melhor para mãe e bebê.

E o que pensa da episiotomia?

A episiotomia tornou-se comum em muitos centros obstétricos porque acredita-se que esse procedimento agiliza o trabalho de parto. Com as intervenções, repito, vêm os riscos. Comparo esse músculo a uma toalha. Uma vez roto, torna-se debilitado, afetando futuros nascimentos. O que, mais tarde, poderá causar também problemas na região do ânus. Em raríssimas exceções, a episiotomia se faz necessária. Em toda a minha carreira, realizei menos de 50.

É importante ter familiares por perto no parto?

O parto é um evento familiar. As mulheres têm escolhas diferentes em relação às pessoas que elas gostariam de ter por perto nesse momento. Mas dar à luz, para mim, é um milagre. Por isso, encorajamos os pais e outros membros da família a participar, dando suporte às mães.

Todas as mulheres são capazes de parir naturalmente?
Nem todas as mulheres, claro. Algumas condições, como diabete, cardiopatias e pressão alta, são empecilhos. Mas eu encorajo todas as que são saudáveis a tentar. Afinal, a natureza é sábia: as fêmeas mamíferas foram desenhadas para parir. Assim como a amamentação, que é o alimento ideal para o bebê, nunca haverá um jeito melhor para ele vir ao mundo.

O índice de cesáreas no Brasil é o maior do mundo.
Ciente dos riscos, a Agência Nacional da Saúde Suplementar está promovendo medidas para reduzi-lo. Cerca de 2,5 milhões de bebês nascem por ano no Brasil. Desses, 88% são realizados no SUS, que apresenta uma taxa de 28% de cesáreas. O restante dos partos ocorre no setor suplementar de saúde, no qual o índice desse tipo de cirurgia é o maior do mundo – 80%. De acordo com estudo recente da Organização Mundial de Saúde, o aumento das taxas de partos cirúrgicos, fenômeno global, implica em piores índices de mortalidade materna e neonatal. A conclusão é que a intervenção médica que salva indivíduos doentes em situações de emergência, quando aplicada em populações saudáveis, mais prejudica do que ajuda.

Ciente disso, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) está promovendo medidas para reduzir o elevado índice de cesáreas no Brasil. Entre elas está uma campanha nacional de apoio ao parto normal, com a participação de atrizes globais, que deve irao ar em janeiro. A outra diz respeito à avaliação anual das operadoras, realizada pela ANS. As que apresentarem uma redução na taxa ganharão pontos. A relação das instituições e sua pontuação geral serão divulgadas ao público no segundo semestre.”O objetivo é acabar com o mito de que o parto cirúrgico é a melhor opção”, diz Alzira de Oliveira Jorge, secretária-executiva da ANS.

Fonte: Revista Crescer – 2006