Meu filho assiste TV, e daí?

O importante é a escolha feita com consciência. Com a total noção de como a comunicação de massa ameaça em potencial toda boa educação. Com o profundo impacto social que causa, constitui o protótipo das tendências que hoje em dia querem, por todos os meios, apoderar-se do ser humano e de sua formação futura.

Como pais, nossa missão é ajudar na formação do ser humano harmonioso, desenvolvendo em igualdade de nível e de condições, tanto o intelecto como a vida sentimental e a vontade dos nossos filhos. Além de dar condições para que seja um ser humano bem entrosado no mundo, preparado para as suas responsabilidades sociais. Com caráter ponderado, despertar interesses múltiplos e amplos, desenvolver-lhe a fantasia e, sobretudo, a criatividade, pois sabemos que a falta de imaginação e criatividade é um dos piores males com que se deparam todos que convivem com jovens e adolescentes. Tão importante quando darmos condições para que nossos filhos tenham uma escala elevada de valores para sua vida. Por isso não ter medo de cultivar neles ideais tão anacrônicos como o Belo, o Nobre e o  Bom. É preciso incentivar na criança, jovem e adolescente todo um instrumental no qual se incluam os meios para seu relacionamento com o mundo.

Nesse processo, os próprios sentidos tem um papel saliente. Com efeito, é com os sentidos que o ser humano se ambienta no mundo. É somente mais tarde que seu raciocínio intervém. Portanto, para que haja um entrosamento harmonioso, faz-se necessário o cultivo dos sentidos e, ao mesmo tempo, o cultivo da fantasia.

Evidentemente, o jovem terá uma vivência tanto mais intensa e mais rica do mundo quanto mais agudos forem seus sentidos. A imagem que ele terá do mundo e, como consequência, sua atitude perante o Universo, dependerão diretamente de sua capacidade de observar, bem como do dinamismo e do grau de intensidade de sua fantasia saudável.  Se a criança é plasmada por suas vivências, por tudo o que o mundo lhe traz, as vivências, por seu lado, dependem do preparo que nós damos a ela e, em particular, do cultivo dos sentidos.

O que significa a televisão, do ponto de vista de quem se baseia nos princípios acima expostos?

Aspectos fisiológicos

– De todos os nossos sentidos, a VISÃO é, certamente, a mais nobre. Mais do que os outros sentidos, ela permite ao homem Imagempenetrar no mundo. A tridimensionalidade, a graduação do foco em relação as distâncias, tudo isso é ensinado ao indivíduo por intermédio desse aparelho maravilhoso que é seu OLHO. Podemos dizer que as experiências visuais plasmam o indivíduo mais do que quaisquer outras.

No caso da TV inexiste o fenômeno da acomodação, isto é, o mecanismo que permite ao indivíduo enxergar com a mesma lente, tanto de longe quanto de perto. Diante da tela da TV, a pessoa enxerga tudo sempre a mesma distância, de forma que o mecanismo de acomodação de seu olho não precisa funcionar. O espectador cai na mais profunda preguiça ótica: evidentemente, esse mecanismo sensível da visão se degenera e se atrofia pouco a pouco.

Paralelamente os movimentos da cabeça completam nosso aparelho da visão. O olho acompanha o objeto, o indivíduo desloca a cabeça, vira-se para enxergar melhor, para ver mais de perto, para focalizar determinado objeto; os outros sentidos, principalmente o do movimento e do tato, colaboram com a visão para obter do mundo uma impressão nítida. Ora, tudo isso deixa de existir em quem olha o aparelho de televisão. Contata-se a mais completa imobilidade da cabeça e do resto do corpo, assim como a inatividade de todos os sentidos que, além da visão, deveriam contribuir para formar uma imagem do mundo. Apenas o ouvido funciona e, mesmo assim, apenas parcialmente, por causa do som localizado do alto-falante e da completa distorção sonora. O olhar está sempre fixo no mesmo ponto irreal, às vezes minúsculo.

– O espectador é obrigado a ver tudo, não pode desviar a cabeça, não pode escolher um aspecto da imagem e desprezar outros, não pode dedicar-se a um detalhe. A imagem é pequena demais, distante demais e, como a abrangemos de um só golpe de vista, dispensa completamente a escolha, que pressupõe o cultivo de certa sensibilidade. O indivíduo não apalpa, não cheira e nem pode se aproximar do objeto para ouvir melhor.

– Aliás, essas imagens contempladas pelo espectador, são artificiais, pois resulta de montagem, se distanciando da verdadeira realidade. Provoca total irrealidade do espaço visual. A falta da terceira dimensão, num espetáculo que dure duas horas, cria uma verdadeira ilusão ótica;

– A luz fluorescente, é uma luz que não existe no mundo real. Além dos estudos já comprovados do perigo desses raios emitidos pelo aparelho durante seu funcionamento. Animais e plantas que foram expostos aos raios emitidos cresceram menos e até pereceram, quando continuamente expostas.

– O som oriundo da TV também não existe no mundo real. Vindo do alto-falante, o som é sempre artificial, filtrado e manipulado. A esse som falta a vida, falta o timbre espiritual que acompanha qualquer voz humana e o som de qualquer instrumento. Crianças habituadas a assistir muito a TV acabam desconhecendo a realidade dos ruídos, dos sons da natureza, enquanto na verdade deveriam ser incentivadas a escutar, para diferenciar. A pessoa que assiste muito a TV acaba caindo numa completa passividade de ouvir, pois basta apertar o botão para ouvir melhor. Não há mais qualquer busca, qualquer esforço, chegando a iniciativa a zero.

– A falsidade do som + falsidade da imagem produz um autêntico embrutecimento sonoro e visual.

– A irrealidade do tempo de assimilação. A criança é exposta a rápidas e violentas alterações visuais, constantes das imagens, não tendo nada orgânico na percepção sensorial exigida pela TV, porque a criança tem que se submeter passivamente a todas as extravagâncias técnicas relacionadas a TV. Quando se a mesma caminhar pela rua, campo ou jardim, ela mesma determina a velocidade e a intensidade das impressões que recebe e assimila.

Resumindo, a TV não nos traz o mundo real, ela nos traz uma imagem de mentira, numa luz irreal, dentro de um espaço falso, com pseudomovimento, com um som de mentira, e tudo isso num tempo falso. Podemos facilmente imaginar as consequencias desastrosas para a fantasia e para o entrosamento da criança no mundo se ela for submetida durante várias horas por dia a essa avalanche de falsas impressões. Apenas duas horas por dia significam, em 12 anos, um total de quase 9 MIL HORAS!!!!

– Em caráter social, na realidade, cada espectador é um ser isolado e a criança nunca se encontra mais alienada do seu ambiente e do mundo do que quando assiste a TV. Ao invés de viver dentro do mundo, num dar e receber constante, num intercâmbio de ações e reações, de impressões e de atos, a criança tem diante de si o mundo preparado e ilusório, que ao mesmo tempo fica longe dela. Quando se observa a fisionomia das crianças que assistem a TV, são fisionomias crispadas, onde quase não há lugar para um sorriso, para uma lágrima. Só há tensão extrema e crispação, mas nenhuma reação que se pude qualificar como suave ou harmoniosa.

– A imitação. Até os 7 ou 8 anos a criança é um ser que imita, de modo automático e inconsciente aquilo que vê ao seu redor. Assistir a tv significa que a criança se torna impotente diante das informações que lhe são transmitidas, esse mundo a hipnotiza e ela imita automaticamente. (Nem precisamos falar o porque as crianças brincam de bater, matar, lutar e ofender as outras..)

– Assistindo a TV, a criança passa a identificar lazer com esse passatempo passivo. Ela não brinca mais, não cria mais, mantém-se passiva, à espera de uma solicitação exterior, quando seu verdadeiro desenvolvimento exigiria que também durante as horas de lazer ela fosse solicitada para a criatividade.

– Por último e não menos importante, a destruição familiar com suas funestas consequências sociais. Quando a família toda está a frente da TV, todos se tornam passivos e os pais automaticamente abdicam de sua tarefa de educadores. É tão cômodo sentar as crianças na frente da TV!!!! Elas ficam silenciosas, não atrapalham e deixam os pais livres para fazerem outras coisas…

Gerando comodismo e preguiça para interagir com seus filhos, se tornando incapazes de educá-los, pois essa tarefa foi transferida a TV e a escola. Além do completo distanciamento do seu filho. Depois o professor ou um psicólogo precisa remediar uma situação cuja origem reside nesse comodismo dos pais.

E vale salientar que também é consequência social da TV, a completa FALTA DE RESPEITO. Respeito pelo seu próprio mundo, pela sua individualidade, pela natureza, pelos outros seres.

Considerando-se todos esses aspectos, se o seu filho ou você mesmo assiste a TV.. qual o problema?

(texto extraído em partes do livro PEDAGOGIA WALDORF de Rudolf Lanz)

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