Medo do parto

Por que o parto natural é tão temido? É cultural.
Para a parteira norte-americana Shari Daniels, do programa Central de Bebês, do canal Discovery Home & Health, dar à luz é um milagre — e todas as mulheres saudáveis deveriam, ao menos, tentar o parto natural

Por Malu Echeverria

Em 30 anos de profissão, a parteira norte-americana Shari Daniels trouxe ao mundo mais de 10 mil bebês.
O primeiro foi a própria filha, num hospital, no início dos anos 70. O obstetra e as enfermeiras não levaram em consideração as contrações da grávida, deixando-a esperar no quarto. “Tive, então, de parir minha primeira filha sozinha, com a ajuda do meu marido”, diz Shari, que tem mais seis filhos, dos quais três são adotivos.
Indignada com a humilhação, achou que deveria fazer algo. Foi quando deixou de lado a psicologia e resolveu estudar o parto natural birthhumanizado. Desde então, ela ajudou a abrir casas de parto nos EUA, no México, em Israel, na Índia, no Equador e na Jamaica. Em 1977, criou a primeira escola americana para parteiras nos EUA, na qual já treinou mais de 500 profissionais de costa a costa.

Há dois anos, comanda o Miami Maternity Center, maternidade especializada em parto natural, onde é gravado o programa Central de Bebês, do canal a cabo Discovery Home & Health.

Exceto pelo cheiro de hospital, a maternidade tem ares de casa.

Fotos de bebês e de mulheres grávidas enfeitam as paredes.

Em cada sala de parto, há uma cama de casal e uma banheira, para que as gestantes fiquem à vontade.

O pai é presença comum, tanto no pré-natal quanto no nascimento do bebê. Ali, 80% dos partos são dentro d’água – sem anestesia e, salvo raras exceções, episiotomia. Somente 7% deles terminam em cesárea. Nesses casos, as gestantes são encaminhadas ao hospital mais próximo, a cinco minutos da maternidade.

A seguir, Shari conta por que, na sua opinião, não existe melhor jeito de nascer.

Por que o parto natural é tão temido?É cultural.
Até o século passado, não havia muitas opções.
Durante a Segunda Guerra Mundial, com os médicos fora do país, as mulheres começaram a se dirigir aos hospitais para dar à luz.
Como tinham de esperar na mesma enfermaria, ouviam os gemidos umas das outras.
A histeria, obviamente, alastrava-se.
Os médicos começaram, então, a administrar anestesia para acalmá-las.
As mulheres descobriram que poderiam optar por não sentir dor ou até mesmo planejar uma cesárea, transformando o parto em algo mais previsível.
Foram convencidas de que são fracas e, portanto, não conseguiriam parir sem remédios. Acontece que, em geral, elas desconhecem os riscos envolvidos nessas intervenções, os quais são evitados no parto natural.

É possível se preparar psicologicamente para o parto?
Sim, basta encarar a experiência como algo natural. Milhões de bebês ao longo da história da humanidade nasceram desse jeito.

Como você ajuda as mulheres a lidar com a dor?
Há várias técnicas que podem ser úteis. Ter a barriga submersa em água morna, por exemplo, produz um efeito calmante, como podemos observar nos partos que realizamos dentro d’água. Mas o principal é concentrar-se na maravilhosa experiência de trazer uma criança ao mundo.

Você é contra anestesia?
A prática de evitar remédios durante a gravidez deve ser mantida no parto, a não ser que exista realmente indicação médica. Acreditamos, portanto, que um parto sem o uso de medicamentos é melhor para mãe e bebê.

E o que pensa da episiotomia?

A episiotomia tornou-se comum em muitos centros obstétricos porque acredita-se que esse procedimento agiliza o trabalho de parto. Com as intervenções, repito, vêm os riscos. Comparo esse músculo a uma toalha. Uma vez roto, torna-se debilitado, afetando futuros nascimentos. O que, mais tarde, poderá causar também problemas na região do ânus. Em raríssimas exceções, a episiotomia se faz necessária. Em toda a minha carreira, realizei menos de 50.

É importante ter familiares por perto no parto?

O parto é um evento familiar. As mulheres têm escolhas diferentes em relação às pessoas que elas gostariam de ter por perto nesse momento. Mas dar à luz, para mim, é um milagre. Por isso, encorajamos os pais e outros membros da família a participar, dando suporte às mães.

Todas as mulheres são capazes de parir naturalmente?
Nem todas as mulheres, claro. Algumas condições, como diabete, cardiopatias e pressão alta, são empecilhos. Mas eu encorajo todas as que são saudáveis a tentar. Afinal, a natureza é sábia: as fêmeas mamíferas foram desenhadas para parir. Assim como a amamentação, que é o alimento ideal para o bebê, nunca haverá um jeito melhor para ele vir ao mundo.

O índice de cesáreas no Brasil é o maior do mundo.
Ciente dos riscos, a Agência Nacional da Saúde Suplementar está promovendo medidas para reduzi-lo. Cerca de 2,5 milhões de bebês nascem por ano no Brasil. Desses, 88% são realizados no SUS, que apresenta uma taxa de 28% de cesáreas. O restante dos partos ocorre no setor suplementar de saúde, no qual o índice desse tipo de cirurgia é o maior do mundo – 80%. De acordo com estudo recente da Organização Mundial de Saúde, o aumento das taxas de partos cirúrgicos, fenômeno global, implica em piores índices de mortalidade materna e neonatal. A conclusão é que a intervenção médica que salva indivíduos doentes em situações de emergência, quando aplicada em populações saudáveis, mais prejudica do que ajuda.

Ciente disso, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) está promovendo medidas para reduzir o elevado índice de cesáreas no Brasil. Entre elas está uma campanha nacional de apoio ao parto normal, com a participação de atrizes globais, que deve irao ar em janeiro. A outra diz respeito à avaliação anual das operadoras, realizada pela ANS. As que apresentarem uma redução na taxa ganharão pontos. A relação das instituições e sua pontuação geral serão divulgadas ao público no segundo semestre.”O objetivo é acabar com o mito de que o parto cirúrgico é a melhor opção”, diz Alzira de Oliveira Jorge, secretária-executiva da ANS.

Fonte: Revista Crescer – 2006

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